Especialistas alertam para os riscos da desidratação e da falta de acesso à água tratada
No Dia Mundial da Água, a reflexão sobre o papel desse recurso na vida humana vai além da preservação ambiental e alcança um ponto central: a saúde pública. Essencial para o funcionamento do organismo, a água também é determinante para prevenir doenças e garantir qualidade de vida. E apesar da sua importância, o acesso à água é um cenário ainda distante para milhões de brasileiros.
Dados do Instituto Trata Brasil revelam que o país registrou mais de 336 mil internações por doenças de veiculação hídrica em 2024. O número evidencia uma contradição: embora o Brasil concentre cerca de 12% da água doce do planeta — com grande parte localizada na Região Norte —, ainda enfrenta graves desigualdades no acesso. Entre 33 e 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável, enquanto quase 90 milhões vivem sem coleta de esgoto. Soma-se a isso o desperdício de 39,5% da água tratada antes mesmo de chegar às torneiras.
Do ponto de vista biológico, a água é indispensável ao funcionamento do corpo humano. A médica e docente do IDOMED, Karina Almeida, explica que o recurso atua diretamente na manutenção do volume sanguíneo e no funcionamento do sistema circulatório. “A partir da circulação, a água também contribui para o sistema renal, pois é por meio dela que filtramos as impurezas do organismo. O líquido também é fundamental para a regulação da temperatura corporal”, afirma.
Segundo a especialista, a desidratação pode provocar tontura, queda de rendimento, estresse e hipotensão. A ingestão insuficiente de água pode, ainda, comprometer diversos sistemas do organismo. Crianças e idosos exigem atenção redobrada: os pequenos nem sempre conseguem expressar a sede, enquanto os mais velhos tendem a perder essa percepção, o que pode agravar quadros e até levar à insuficiência renal.
Embora a recomendação de ingestão de dois litros de água por dia seja amplamente difundida, Karina ressalta que o volume ideal varia conforme fatores individuais. “O ideal é que cada pessoa busque orientação profissional para uma recomendação adequada à sua realidade, pois cada paciente possui peso, idade, nível de atividade física e vive em locais com condições climáticas distintas”, pontua.
A importância da água também se estende às práticas básicas de higiene, fundamentais na prevenção de doenças. A lavagem adequada das mãos, por exemplo, reduz a transmissão de infecções respiratórias, virais e parasitárias. O mesmo vale para a higienização de alimentos, especialmente aqueles consumidos crus, como frutas, verduras e legumes.
Nesse contexto, a ausência de saneamento básico potencializa riscos. “A relação entre falta de água tratada, saneamento precário e doenças infecciosas é direta. Ambientes sem acesso à água potável e sem tratamento de resíduos tornam-se propícios à proliferação de doenças como verminoses e hepatites, além de infecções causadas por agentes químicos presentes na água contaminada”, destaca a médica.
A qualidade da água utilizada no cotidiano também é um fator determinante. Não apenas a água destinada ao consumo precisa ser potável, mas toda a água utilizada em atividades domésticas deve ser segura. Isso inclui desde o preparo de alimentos até a higiene pessoal e a limpeza de utensílios.
Já em escala coletiva, a disponibilidade de água e o acesso ao saneamento refletem diretamente nos indicadores de saúde de uma população. Comunidades com infraestrutura adequada tendem a apresentar menores índices de doenças, enquanto regiões com acesso precário enfrentam ciclos persistentes de adoecimento, especialmente entre crianças e idosos.
Em áreas de clima quente e úmido, como a Amazônia, a atenção à hidratação deve ser ainda maior. A perda de líquidos pelo suor exige reposição constante, independentemente da sensação de sede. Diante desse cenário, o Dia Mundial da Água reforça uma mensagem urgente: mais do que um recurso natural, a água é um direito fundamental e um pilar da saúde pública. Garantir acesso universal e de qualidade não é apenas uma questão de infraestrutura, mas de dignidade e vida.
Compartilhar o conteúdo:



Publicar comentário