“Natural não significa seguro”: especialista alerta para riscos do uso indiscriminado de medicamentos naturais

“Natural não significa seguro”: especialista alerta para riscos do uso indiscriminado de medicamentos naturais

A ideia de que produtos naturais são sempre seguros ainda faz parte do senso comum. Chás, plantas medicinais, fitoterápicos e suplementos muitas vezes são utilizados por indicação de familiares, amigos ou até de influenciadores nas redes sociais. No entanto, o uso indiscriminado dessas substâncias pode trazer riscos à saúde e até interferir em tratamentos já realizados pelo paciente.

Segundo Luiz Mário Pará, farmacêutico e docente do IDOMED Castanhal, a afirmação de que “se é natural, não faz mal” é um mito que precisa ser combatido. Isso porque substâncias encontradas na natureza podem apresentar efeitos farmacológicos importantes e, consequentemente, também provocar reações adversas.

“Existem muitas substâncias naturais com efeito farmacológico e é justamente esse efeito que também pode causar reações adversas, intoxicações, alergias e interações medicamentosas. O que determina a segurança de uma substância não é a sua origem, se natural ou sintética, mas sua composição, a dose, a forma de utilização e seu perfil de segurança”, explica o especialista.

Uso sem orientação pode provocar danos ao fígado e aos rins
Entre os principais riscos relacionados ao uso indiscriminado de produtos naturais estão intoxicações, lesões hepáticas e renais, reações alérgicas, alterações da pressão arterial e distúrbios de coagulação. A atenção deve ser ainda maior entre pessoas que já apresentam doenças no fígado ou nos rins ou possuem histórico de reações alérgicas.

Outro problema destacado pelo farmacêutico é o consumo de produtos sem controle adequado de qualidade ou sem padronização da concentração e da presença dos princípios ativos.

Além dos efeitos adversos, a falsa sensação de segurança pode fazer com que algumas pessoas utilizem esses produtos para tratar sintomas por conta própria e demorem a procurar atendimento profissional.

“Um dos riscos é mascarar sintomas e, com isso, atrasar a busca por um diagnóstico correto e o início do tratamento adequado. Dependendo da doença, esse tempo pode ser muito importante”, alerta Luiz Mário.

“Vizinhoterapia” e recomendações das redes sociais exigem atenção
Entre os comportamentos mais observados no uso de tratamentos naturais sem orientação está a indicação feita por pessoas que não possuem conhecimento técnico. Segundo o docente, a prática é tão comum que ganhou até um apelido entre profissionais da área: “vizinhoterapia”.

“O vizinho usou, recomenda e a outra pessoa começa a utilizar também. Hoje temos ainda as recomendações de familiares e influenciadores nas redes sociais. Mas nenhum medicamento, natural ou não, deve ser utilizado sem uma avaliação adequada de um profissional de saúde”, reforça.
A combinação de diversos produtos também merece atenção. Os populares “chás de várias ervas”, por exemplo, podem reunir diferentes substâncias ativas e elevar o risco de efeitos indesejados.

“É comum vermos chá de 20, 30 ou até mais ervas. Na tentativa de associar efeitos terapêuticos, as pessoas podem acabar utilizando muitos produtos ao mesmo tempo e, em alguns casos, em doses elevadas. Isso pode aumentar bastante a possibilidade de efeitos adversos”, explica.

Uso de chás e fitoterápicos deve ser informado durante consultas
Outro cuidado importante é informar aos profissionais de saúde sobre qualquer produto natural que esteja sendo utilizado. Muitos pacientes não consideram chás, fitoterápicos ou suplementos como parte de um tratamento e, por isso, deixam de mencioná-los durante consultas médicas.

A omissão pode dificultar a avaliação do profissional e aumentar o risco de interações entre as substâncias naturais e medicamentos prescritos.
“É importante que o paciente relate tudo o que está utilizando. Quando essa informação não é compartilhada, o profissional pode prescrever um tratamento sem considerar uma possível interação ou até uma intoxicação decorrente da associação entre o produto natural e o medicamento”, destaca Luiz Mário.

Para o especialista, a principal orientação é não associar “natural” a “inofensivo”. Mesmo produtos tradicionalmente utilizados pela população podem apresentar contraindicações, interagir com medicamentos e causar efeitos adversos. Por isso, a orientação de profissionais de saúde e o uso responsável são fundamentais para que possíveis benefícios não sejam acompanhados de riscos desnecessários.

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